Antes de mais, muito obrigado em nome do Projecto Dominium por toda a sua disponibilidade e simpatia em colaborar com este Projecto e a Revista em particular.
Depois, os parabéns por um trabalho que consideramos bem conseguido e, certamente, dará que falar…
Obrigado!
1.Idade, profissão, estado civil e nacionalidade.
38 anos, Físico, solteiro e brasileiro.
2.Por que um documentário de BDSM?
Por que, não? Estudar as diferenças é estudar a vida. Não sou bdsmista, mas gosto de temas extremos e limites, acho que neles testamos e descobrimos o que é realmente essencial nesta vida. Quero fazer um cinema de coisas e sentimentos básicos. BDSM é território fértil pra isso.
3.Fê-lo na perspectiva de realizador, observador, praticante, ou numa vertente que engloba um pouco das três?
Fiz na busca por conhecimento, na busca por desafios de fazer um filme documentário sobre personas, não identidades. Em conhecer pessoas diferentes e reconhecer algo de mim mesmo ali. Isto sempre é um risco porque pode ser o reconhecimento de algo que eu não queira ver. Se isso acontece comigo, pode acontecer com qualquer um que se disponha a ver algo que eu faço.
Todo cineasta é voyeur em maior ou menor grau. Eu sou extremo nisso também.
4.Quais as suas referências documentais/cinematográficas que o inspiraram no seu filme?
Da época muda gosto muito de Dziga Vertov, do cinema Russo revolucionário e da escola inglesa de John Grierson. O cinema documentário moderno dos anos 60 para cá. O Cinema de Jean Rouche e o seu oposto,o cinema dos irmãos Maysles, por exemplo. No Brasil, Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, são os caras que eu gosto de ver, ouvir e ler sobre.
5.Tem formação cinematográfica específica ou é mero autodidacta?
Sim, eu sou Físico por formação. Fiz mestrado em ótica e teoria do espalhamento semiclássico da luz. Sempre fui cinéfilo e no meio dos anos 90 me tornei fotógrafo amador de still. Fiz uma Pós Graduação em 2003 com projeto final em cinema e educação, finalmente em 2004 comecei um curso de bacharel em cinema. Termino agora em 2007.
6.Não sendo praticante de BDSM, como descobriu o BDSM?
Sempre pensei em fazer um filme sobre sexualidade, em princípio seria um curta-metragem de ficção. Sentei e pensei em fazer algo com chicotes, amarras e morte. Iniciei minha pesquisa e felizmente, conheci uma pessoa que acreditou em mim e começamos a trocar mails. Lá pelas tantas resolvi entrevistá-la, ela aceitou e daí para fazer um documentário foi fácil. O projeto em ficção não foi abandonado, também não será BDSM, mas terá elementos sobre uma noite alternativa.
7.Considera-se um “alternativo” por se interessar/praticar BDSM?
Sim, vivo coisas fora da norma. Fazem parte da vida.
8.Já se sentiu discriminado por pertencer a alguma minoria? De que forma?
Bem, eu sou gordo, gosto de computadores e de coisas estranhas. Já sofri e já imprimi discriminações sim, todos nós temos estes pecados para contar. Mais uma vez, isso faz parte da vida.
9.No Brasil, a Internet permitiu acesso total a meios alternativos antes de difícil acesso, ou não? Qual a realidade?
Gosto muito deste tema, no meu documentário eu tenho um segmento todo voltado para isso. Orkut, listas, chats e outros são meios de informação. O stablishment não gosta deles porque notaram que perderam o controle sobre a principal comodittie do mundo contemporâneo: a informação. Além disso, velhos impérios intocáveis de bem estar como a telefonia foram desnudados, o Skype mostrou que telefonar do Rio de Janeiro para Lisboa vale tanto quanto ligar para um amigo na rua ao lado aqui de casa. O cinema é contemporâneo da telefonia, será que ele também sofrerá conseqüências? A realidade de cada é proporcional a quantidade de informação com a qual o indivíduo possa lidar. Por isso verdades e mentiras sempre estarão ligadas a informação, consequentemente poder e dinheiro também. Não é por acaso que até hoje Charles Foster Kane é paradigma de maldade aplicada. Todo ditador possui ou incendeia um jornal.
10.Conhece bem a Comunidade BDSM no Brasil? Defina-a.
Conheci algumas pessoas de prática BDSM do Rio e de São Paulo, Brasil. Uma diversidade enorme, brevemente retratada com as 12 pessoas que toparam aparecer no meu documentário, fora outras tantas que conversaram, e ainda conversam, comigo e me adicionaram a lista de seus MSN. Seria uma falácia definir qualquer coisa com relação à comunidade. Apenas posso agradecer a oportunidade e a confiança que tiveram em minha câmera e em minha edição.
11.Considera-a activa e capaz, ou que falta para ser de facto uma Comunidade a 100%?
Não tenho capacidade de estabelecer juízo ou apreciação de tal questão. Porém, acredito que como todo grupo humano, ainda mais brasileiro, egos e pudores sempre serão os principais problemas para avanços e conquistas efetivas de resultados para o grupo. Todo grupo humano se atrapalha internamente por ego e pudor. Aquilo que escondemos e mostramos é nossa ruína.
12.Conhece outras realidades de BDSM internacionais?
Escutei algumas histórias interessantes, vi alguns documentários e li alguns livros para fazer este trabalho, sim. Inclusive assiti uma reportagem no YouTube sobre a cena portuguesa de excelente nível, tanto de apresentação do tema, quanto para referências imagéticas futuras. Muito bonito.
13.Há no Brasil mercado para produtos como o seu documentário, ou os praticantes não procuram mais informação além da prática?
Uma das coisas interessantes no grupo de bdsmistas é à busca de informação, até mesmo pelo extremo do jogo, muitos escrevem poemas e contos, mantém seus blogs. Os sites trazem indicações de técnicas, livros e filmes. Acredito que se trata de um grupo onde a cultura, ou ao menos a “endocultura” do grupo, seja valorizada. Nenhum documentário dá dinheiro, minha busca foi de realizador mesmo, produzi e dirigi este trabalho, com equipe mínima e equipamentos leves, alguns até feitos por mim. Com relação a mercado, espero que ele possa ser exibido em mostras e festivais. Apenas isso. Não espero retorno financeiro.
14.Pretende continuar a explorar o tema cinematograficamente?
Sim, sexo é vida. BDSM faz parte dela, da nossa contemporaneidade e da busca por temas diversos do mainstream.
15.Por quê?
Novamente, por que não? Meu próximo trabalho será sobre relações pessoais em crise, onde a válvula de escape sexual já não são mais suficientes para segurar a ligação entre estas pessoas. As possibilidades de abrir um relacionamento a novas experiências, novas pessoas, a busca pelo sensorial. Certamente, com este argumento o BDSM estará envolvido de alguma forma. Mesmo quem não curtiu meu documentário, viu nele alguns bons exemplos de tempero aqui e ali.
16.Há apoio no Brasil para os ditos estilos de vida alternativos, ou continuam a ser considerados “anormais” e vivem na sombra?
Aqui no Brasil há pouco dinheiro. Onde ele existe podemos pensar em diversidade e estilos alternativos, onde não há fica difícil. Que tipo de apoio poderia haver? Somos um País pobre de tradição católica e agora invadido pelo retrocesso das igrejas evangélicas e pentecostais. Quem quiser andar a frente, há que enfrentar muita ventania! Quem quer caminhar que siga em frente, quem espera apoio periga ser coberto ou derrubado.
17.Está a colaborar com uma revista dedicada a estilos de vida alternativos. Há publicações semelhantes no Brasil? Seriam necessárias ou supérfluas? Por quê?
A diversidade tem que ser celebrada e registrada, existem pouquíssimas publicações aqui, até porque o mercado editorial aqui é um cartel. Três ou quatro grupos tomam conta de tudo. Sob os desígnios da entidade mercado, vivemos sob o jugo do senso comum. Alguns eventos esporádicos, mas o normal mesmo é sofrer vendo a diversidade representada nas publicações estrangeiras. Com pouco dinheiro existe um achatamento muito grande de opiniões e riscos possíveis que um editor possa tomar. Aqui no Brasil reconheço pouquíssimas revistas que registrem com isenção as tribos urbanas diversas.
18.Tem uma mensagem para os BDSMers Portugueses? E para os “alternativos” em geral?
Muito obrigado pela oportunidade de conversar com vocês, espero que possa ter meu trabalho visto e apreciado em terras portuguesas. Tenham certeza que meus filmes continuarão seguindo por estradas vicinais.
19.Depois de ter “entrado” no meio BDSM, mudou a sua perspectiva dessa afinidade?
Sim, meu respeito e interesse pela diversidade A busca por expressar e buscar caminhos diferentes da normalidade, do senso comum. Vi também algumas coisas que necessitam de uma maior apreciação. Entender porque o gueto sempre acaba replicando regras do “sistemão” é uma busca pessoal. Penso que uma minoria deve ter consciência de sua condição. Alguns bdsmistas não gostam do rótulo extremo atrelado ao nome, mas é. A diferença não é pecado, não é defeito é apenas diferença e deve ser aceita como tal, pelo dito diferente e pelo dito normal. Acredito nisso. Somos únicos na medida em que nos afastamos da normalidade, ninguém é lembrado por ter boca, nariz, dois braços e duas pernas, isso na média todos temos, as diferenças e como lidamos com ela é que é a marca, o legado do homem para com seus pares. Viva a vida, viva a sua vida.
20.O que o atrai mais no BDSM agora, ou o repugna…?
O que me atrai me atraía antes. Algumas coisas novas eu descobri e estou namorando. O que me repugnava antes continua me repugnando e não vai acontecer nunca em minha vida.
21.Há outras afinidades de comunidades alternativas que pretende explorar cinematograficamente? Quais e por quê?
Gosto dos tipos soturnos, os vampiros e os hematófilos. Fiz um filme de terror este ano, cogitei até ter um vampiro no filme, mas acabei optando por um ator mesmo. Gosto de mulheres branquelas e de musica alternativa. Acho que sempre vou estar envolvido com cinema marginal, temas malditos e urbanos. É isso que quero fazer. Felizmente é o que eu tenho feito.